O futuro do clima é construído no mar

O futuro do clima é construído no mar 1280 720 Foro para la Conservación del Mar Patagónico
Um Mar Patagônico saudável é um ecossistema com maior capacidade de adaptação diante das mudanças globais. As organizações do Fórum para a Conservação do Mar Patagônico e Áreas de Influência sustentam que conservar a integridade desse ecossistema é a base para garantir seus benefícios ecológicos, sociais e econômicos em um contexto de mudanças inevitáveis.
Albatros ceja negra sobrevolando el Mar Patagónico - © WCS Argentina

Há uma região, no sul do planeta, que está constantemente absorvendo o calor e o carbono que o mundo produz em excesso e não consegue desacelerar. Faz isso silenciosamente, com uma extraordinária capacidade de regulação climática, e a um custo cada vez maior para si mesma. Esse lugar é o Mar Patagônico, e a mudança já está em curso: suas águas estão se aquecendo, as frentes oceânicas estão alterando sua dinâmica e inúmeras espécies já estão deslocando suas áreas de distribuição para o sul em resposta às mudanças climáticas.

A questão já não é se a mudança chegará, mas quão preparados estarão seus ecossistemas para responder a ela. Ecossistemas saudáveis e íntegros adaptam-se melhor do que aqueles que foram degradados. Por isso, proteger e fortalecer as Áreas Marinhas Protegidas conectadas da Argentina, Chile, Uruguai e Brasil é hoje a estratégia mais concreta de resiliência climática: conservar para que o mar continue sustentando a diversidade de formas de vida.

Uma vitória que aponta o caminho

No mês de março, o Brasil criou o Parque Nacional Marinho de Albardão, o maior parque marinho de sua história, no extremo sul do país. O Fórum chamou atenção para esta área em 2017, ao incluí-la na lista dos “Faróis do Mar Patagônico”, sítios prioritários para a conservação da biodiversidade marinha do Cone Sul. O governo brasileiro já havia identificado essa região como área prioritária para conservação no ano 2000. Quase uma década de ciência, cooperação regional e trabalho institucional se traduziu em um decreto presidencial. Uma nova válvula se abriu no coração azul do sul. 

“Essa conquista demonstra que, quando ciência, sociedade civil e governos trabalham juntos, a natureza pode vencer”, afirmou Carolina Contato, da NEMA, Brasil. “O Albardão não é o destino de 20 anos de trabalho. É o ponto de partida para o que vem pela frente.”

Mas a celebração convive com a urgência. O mesmo sistema marinho que as Unidades de Conservação dp Albardão ajudam a proteger está sob uma pressão climática sem precedentes. As águas frias do Atlântico Sudoeste absorvem mais CO₂ do que qualquer mar tropical, uma função reguladora crítica para o clima global, que enfraquece à medida que o oceano aquece e acidifica.

“A conservação e a gestão adequada dos ecossistemas, especialmente das Áreas Costeiras e Marinhas Protegidas, contribuem para fortalecer sua capacidade de adaptação, favorecendo o bem-estar das pessoas”, afirmou Santiago Krapovickas, Coordenador do Programa Mar Patagônico Resiliente do Fórum e gerente de projetos costeiro-marinhos da WCS Argentina.

Vista aérea de la región del Parque Nacional Albardão y del Faro Albardão. ©NEMA

Por que a conectividade não pode esperar

O Mar Patagônico conecta os ecossistemas costeiros e marinhos da Argentina, Chile, Uruguai e Brasil por meio de correntes oceânicas que sustentam as migrações, a alimentação e a reprodução de baleias, tubarões, aves marinhas, tartarugas e pinguins. Muitas dessas espécies percorrem milhares de quilômetros atravessando múltiplas jurisdições ao longo de seu ciclo de vida, o que torna ineficazes respostas isoladas de cada país.

As Áreas Marinhas Protegidas, quando bem geridas e conectadas entre si, funcionam como refúgios climáticos: zonas onde os ecossistemas podem se recuperar, manter sua produtividade e continuar oferecendo serviços essenciais dos quais dependem as comunidades costeiras, desde a pesca artesanal até a regulação do clima local.

“O oceano funciona como um único sistema vivo. Sua proteção também precisa ser pensada de forma integrada”, afirmou Andrea Michelson, coordenadora regional do Fórum. “A adaptação climática do sul não depende de uma única área protegida nem de um único país. Depende da nossa capacidade de trabalhar em rede.”

O Fórum, que reúne 30 organizações da Argentina, Chile, Uruguai e Brasil, compartilha desde 2004 uma visão comum: a conservação do Mar Patagônico requer escala regional, sólida base científica e governança colaborativa. Sua meta de longo prazo é contribuir para a construção de uma rede ecologicamente conectada de Áreas Marinhas Protegidas e corredores de conservação em todo o Mar Patagônico, um desafio que exige a articulação entre governos, comunidades, setor científico, organizações da sociedade civil e outros atores estratégicos da região. 

Cola de Ballena Franca Austral. @Instituto de Conservación de Ballenas

Muito mais do que uma causa ambiental

As consequências do enfraquecimento do Mar Patagônico não são abstratas. Comunidades pesqueiras artesanais da Patagônia já registram mudanças nas espécies capturadas, nas temporadas e nas áreas de pesca onde sempre trabalharam. A biodiversidade do sul é a base de economias locais, tradições culturais e sistemas alimentares que não têm substituto.

O programa regional Mar Patagônico Resiliente, impulsionado pelo Fórum, busca avançar rumo a um Mar Patagônico “climaticamente inteligente”: uma nova geração de conservação marinha capaz de incorporar projeções climáticas à gestão das Áreas Marinhas Protegidas e de fortalecer refúgios marinhos diante dos impactos dessa crise multidimensional.

“Proteger o oceano já não é apenas uma causa ambiental”, resumiu Daniela Castro, coordenadora do nodo chileno. “É uma decisão climática, social e econômica. E no sul, já temos as ferramentas, a ciência e a rede para fazer isso da maneira certa.”

Neste Dia Mundial dos Oceanos, o Fórum convoca governos, meios de comunicação, comunidades e cidadãos a compreender que o futuro climático também se decide aqui, no sul, sobre e sob a superfície do mar. O Mar Patagônico nos protege há séculos, mas as pressões humanas estão enfraquecendo esse aliado. É hora de protegê-lo. É hora de proteger a nós mesmos.

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