O Fórum para a Conservação do Mar Patagônico e Áreas de Influência celebrou a conquista coletiva e destacou que a proteção de Albardão fortalece a rede de ecossistemas que conectam o sul do Brasil ao Mar Patagônico, um dos mares mais produtivos e biodiversos do planeta.
“Esse resultado mostra que, quando ciência, sociedade civil e comunidades atuam juntas, a natureza pode vencer. Proteger Albardão é proteger a vida no oceano e o bem-estar das pessoas que dependem dele”, afirmou Andrea Michelson, coordenadora regional do Fórum.
Ciência no mar revela refúgio de biodiversidade
A pesquisa científica teve papel decisivo para revelar a importância ecológica da região. Uma expedição liderada pelo Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA), pelo Projeto Baleia Jubarte e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) investigou o fundo marinho de Albardão, considerado um importante berçário de vida marinha.
Durante a expedição, pesquisadores realizaram o mergulho autônomo mais austral já registrado no Brasil, próximo à fronteira com o Uruguai. As observações confirmaram que corais e diversos organismos bentônicos cobrem cabeços e recifes de arenito e calcário da região, formando habitats complexos que sustentam uma grande diversidade de espécies.
Esses resultados reforçam as evidências científicas sobre o papel de Albardão como área de reprodução, alimentação e refúgio para numerosas espécies marinhas.
“Com a criação da unidade de conservação, Albardão passa a ser o maior parque nacional marinho do Brasil. Trata-se de um marco histórico para a proteção de ecossistemas costeiros estratégicos para o país. Além de servir como refúgio para espécies atualmente ameaçadas, a região tem relevância internacional devido à sua conexão com o Mar Patagônico, influenciando populações de espécies migratórias que chegam à Antártica e utilizam essa área como ponto-chave de alimentação e reprodução”, destacou Carolina Contato, coordenadora do NEMA.
“A iniciativa também abre caminho para avançar na criação de áreas marinhas protegidas em outras regiões de atuação do Fórum, fortalecendo nossa rede de Áreas Marinhas Protegidas e contribuindo para um Mar Patagônico mais resiliente. Albardão chegou ao seu limite e a criação do parque não podia mais esperar. Agora começa uma nova etapa: garantir a implementação e a proteção efetiva dessa área”, acrescentou.
Uma luta de décadas pela proteção de Albardão
José Truda Palazzo Jr., coordenador institucional do Instituto Baleia Jubarte e coordenador geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande, comemorou a criação do santuário com o entusiasmo de quem trabalha pela proteção de Albardão desde 1999.
“Quando o Brasil começou a definir áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, Albardão apareceu como uma das regiões mais importantes. Mas também era uma área onde frotas pesqueiras de empresas muito poderosas realizavam uma verdadeira ‘mineração de peixes’, sem controle nem fiscalização, por se tratar de uma região extremamente remota. Foi preciso muita luta — e muitos estudos adicionais — para convencer o governo federal a agir”, relembrou.
Truda também destacou o contexto internacional do anúncio: “Em poucas semanas o Brasil sediará a CoP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, onde poderá apresentar a criação do Parque como uma contribuição relevante para os compromissos assumidos pelo país”.
“O Parque de Albardão protegerá uma área considerada de Importância Internacional para tubarões, baleias e golfinhos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e ajudará o Brasil a cumprir seu compromisso com a Convenção sobre Diversidade Biológica de avançar na meta 30×30 — proteger 30% de cada bioma nacional até 2030”, celebrou.
Um farol para a conservação do oceano
Em 2013, o Fórum incluiu Albardão em sua iniciativa Faróis do Mar Patagônico, que identifica áreas estratégicas para a conservação costeiro-marinha na região. O reconhecimento ajudou a ampliar a visibilidade da importância ecológica da área e fortaleceu a cooperação entre organizações de diferentes países.
Em 2021, em plena pandemia de COVID-19, organizações do Brasil e do Uruguai lançaram um projeto regional para ampliar a conscientização pública sobre a biodiversidade marinha compartilhada. Com o apoio da The Gaia Foundation e da Oceans 5, a iniciativa desenvolveu materiais educativos, promoveu exposições, levou a campanha ao Congresso Mundial de Áreas Marinhas Protegidas de 2023, no Canadá, e resultou na publicação de um livro de acesso livre sobre a importância ecológica de Albardão.
“Este parque é fruto de anos de ciência, cooperação regional e perseverança. A proteção de Albardão demonstra que a conservação é possível quando se constroem alianças entre países e organizações”, destacaram representantes do Fórum.
A criação do Parque Nacional Marinho Albardão representa uma vitória para a natureza — e também um convite para seguir trabalhando por um oceano saudável, capaz de continuar oferecendo vida, bem-estar e futuro às nossas sociedades.